Lima Barreto (1915)

Triste Fim de Policarpo Quaresma — 10 passagens que explicam o Brasil

Lima Barreto escreveu sobre um patriota que leva o Brasil a sério. 110 anos depois, a tragédia de Quaresma continua sendo a nossa.

Por Felipe 9 min de leitura

O Livro

Lima Barreto publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma primeiro como folhetim no Jornal do Commercio em 1911, e depois em livro em 1915 — custeando ele mesmo a edição. Mulato pobre numa sociedade racista, funcionário público num sistema que desprezava, escritor brilhante que morreu sem reconhecimento, Lima Barreto conhecia de perto a distância entre o Brasil oficial e o Brasil real.

O protagonista é Policarpo Quaresma, um funcionário público de meia-idade obcecado por uma única coisa: o Brasil. Não o Brasil que existe, mas o Brasil que deveria existir — grandioso, autêntico, livre da imitação europeia. Quaresma estuda tupi-guarani, defende o violão contra o piano importado, pesquisa folclore, lê tratados de agricultura. Quer salvar a pátria.

O livro acompanha três tentativas de Quaresma de transformar seu patriotismo em ação — e três fracassos devastadores. É uma tragicomédia sobre o que acontece quando um homem honesto leva a sério um país que não se leva a sério.

10 Passagens de Impacto

1. O patriota metódico

“Como de hábito, Policarpo Quaresma, mais conhecido por Major Quaresma, bateu em casa às quatro e quinze da tarde. Havia mais de vinte anos que isso acontecia.”

A primeira frase do livro já apresenta o personagem: um homem de rotina absoluta, previsível como um relógio. A vizinhança usa sua passagem para marcar a hora do jantar. Quaresma é tão regular que parece “a aparição de um astro, um fenômeno matematicamente determinado”.

Por que importa: Lima Barreto nos mostra um homem que organizou a vida inteira em torno de uma obsessão — o estudo do Brasil. Não há esposa, não há filhos, não há ambição de carreira. Só livros, pesquisas e um amor imenso por uma pátria que ele conhece apenas através de páginas. É a primeira pista de que esse amor será trágico.

2. O patriotismo como doença

“Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o todo inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente.”

O narrador descreve o patriotismo de Quaresma como algo que “tomou-o todo inteiro” — linguagem de possessão, de doença. Não é o patriotismo de discurso e bandeira; é uma dedicação total que consome a vida do personagem.

Por que importa: Lima Barreto distingue dois tipos de patriotismo: o “palrador e vazio” — que faz discursos e não faz nada — e o de Quaresma, sincero até a ingenuidade. O problema é que o Brasil não sabe o que fazer com gente sincera. O sistema funciona com o patriotismo de fachada; o verdadeiro é perigoso.

3. O escândalo do violão

“Que era? Um batalhão? Um incêndio? Nada disto: o Major Quaresma, de cabeça baixa, com pequenos passos de boi de carro, subia a rua, tendo debaixo do braço um violão impudico.”

Quaresma decide que, para valorizar a cultura nacional, precisa aprender violão — o instrumento das modinhas populares, não o piano europeu da elite. A vizinhança fica horrorizada. Um homem respeitável, funcionário público, carregando um violão pela rua? A consideração que o Major merecia diminuiu consideravelmente.

Por que importa: O violão era visto como coisa de vagabundo, de negro, de pobre. Lima Barreto expõe uma sociedade que fala em valorizar o Brasil mas despreza tudo que é genuinamente brasileiro. O major quer abraçar a cultura popular; a elite quer imitação europeia com verniz tropical.

4. A proposta insana

“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.”

Quaresma escreve um requerimento ao Congresso pedindo que o tupi-guarani seja adotado como língua oficial do Brasil. O documento vaza. A imprensa ridiculariza. Os colegas riem. O major é chamado de “Ubirajara” nos corredores do trabalho. A humilhação é total.

Por que importa: A proposta é absurda — e esse é o ponto. Quaresma leva às últimas consequências uma lógica que todo mundo repete mas ninguém pratica: se somos brasileiros, por que falamos a língua do colonizador? Lima Barreto mostra que o nacionalismo brasileiro é pura retórica. Quando alguém tenta ser coerente, vira piada.

5. A loucura como diagnóstico

“Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza, fica amedrontado, sentindo que o gérmen daquilo está depositado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga.”

Após a humilhação pública, Quaresma tem um colapso nervoso e é internado num hospício. O narrador reflete sobre a loucura — não como doença de Quaresma, mas como possibilidade que habita todos nós. “O gérmen daquilo está depositado em nós.”

Por que importa: Lima Barreto conhecia hospícios por dentro — foi internado duas vezes. A passagem é autobiográfica e universal ao mesmo tempo. E levanta uma pergunta: quem é o louco? O homem que ama o Brasil demais, ou a sociedade que não tolera amor sincero?

6. A terra que devora sonhos

“De resto, a situação geral que o cercava, aquela miséria da população campestre que nunca suspeitara, aquele abandono de terras à improdutividade, encaminhavam sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas.”

Na segunda parte do livro, Quaresma — recuperado e aposentado — compra um sítio para provar que a terra brasileira é a mais fértil do mundo. Basta trabalhar direito. Mas encontra saúvas que destroem plantações, solo esgotado, burocracia que atrapalha, vizinhos hostis e uma “miséria da população campestre” que seus livros nunca mencionaram.

Por que importa: Os tratados que Quaresma leu prometiam um paraíso agrícola. A realidade é abandono, pobreza, descaso. Lima Barreto desmonta o mito da “terra abençoada” — o Brasil não é pobre por falta de recursos, mas por falta de política séria. Os livros mentem; a terra cobra.

7. A política como ela é

“O major ficou a pensar no interesse estranho que essa gente punha nas lutas políticas, nessas tricas eleitorais, como se nelas houvesse qualquer coisa de vital e importante.”

No interior, Quaresma descobre que a política local é feita de favores, vinganças e alianças pessoais. As pessoas se matam por disputas entre coronéis que não têm nenhuma relação com suas vidas reais. O major não entende: por que tanto sangue por tão pouco?

Por que importa: Lima Barreto retrata o clientelismo brasileiro com precisão cirúrgica. A política não é sobre ideias ou projetos — é sobre quem está por cima e quem está por baixo. Os pobres brigam entre si pelas migalhas dos poderosos. Nada mudou em 110 anos.

8. O marechal de ferro

“Era pois para sustentar tal homem que deixara o sossego de sua casa e se arriscava nas trincheiras? Era, pois, por esse homem que tanta gente morria?”

Na terceira parte, Quaresma vai ao Rio de Janeiro para lutar ao lado de Floriano Peixoto contra a Revolta da Armada. Acredita que está defendendo a República, os ideais, o Brasil. Mas ao conhecer Floriano de perto, vê um homem frio, vingativo, indiferente ao sofrimento. Quaresma entrega um memorial com propostas para o país. Floriano nem lê.

Por que importa: O “Marechal de Ferro” era celebrado como herói republicano. Lima Barreto mostra o avesso: um autocrata que executava opositores sem julgamento. Quaresma descobre que os líderes que prometem salvar a pátria geralmente só querem o poder. O patriotismo do povo é ferramenta; o dos poderosos, fachada.

9. O despertar amargo

“Desde os dezoito anos, que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades. Que lhe importavam os rios? Eram grandes? Pois que fossem… Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do Brasil? Em nada…”

Na prisão, aguardando execução, Quaresma finalmente se pergunta: valeu a pena? Trinta anos estudando rios, heróis, folclore — para quê? “Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!”

Por que importa: Este é o momento mais devastador do livro. O patriota descobre que seu amor foi em vão. O Brasil não quis ser salvo — pelo menos não por ele, não daquele jeito. Lima Barreto não condena Quaresma; condena um país que desperdiça seus melhores filhos.

10. O triste fim

“Eu não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar…”

Olga, a afilhada de Quaresma, tenta salvá-lo da execução. Não consegue. O livro termina com ela deixando a prisão, pensando no que viu: não homens modernos, civilizados, republicanos — mas primitivos movidos apenas pela violência. O “triste fim” do título se cumpre fora das páginas: sabemos que Quaresma será fuzilado.

Por que importa: Lima Barreto não mostra a execução. Não precisa. O horror está no contraste entre os ideais de Quaresma e a brutalidade do sistema que o destrói. O Brasil mata seus sonhadores — não com argumentos, mas com balas.

Por que ler Policarpo Quaresma hoje

Lima Barreto escreveu este livro há mais de 110 anos, sobre um Brasil que supostamente já não existe — a República Velha, os coronéis, Floriano Peixoto. Mas abra qualquer jornal:

  • Políticos que falam em pátria enquanto saqueiam o país
  • Uma elite que despreza a cultura popular mas se diz nacionalista
  • Terras férteis abandonadas enquanto o povo passa fome
  • Burocracia que existe para atrapalhar, não para ajudar
  • Idealistas tratados como loucos ou traidores
  • Violência como resposta a quem ousa questionar

Policarpo Quaresma é um Dom Quixote brasileiro — com a diferença de que os moinhos de vento são reais e moem gente de verdade. Sua tragédia não é a loucura; é a lucidez. Ele vê o Brasil como deveria ser e não consegue aceitar o Brasil como é.

Lima Barreto morreu pobre, alcoólatra, duas vezes internado em hospício, sem reconhecimento. Hoje é considerado um dos maiores escritores brasileiros. Policarpo Quaresma morreu fuzilado por amar demais um país que não soube amá-lo de volta.

O triste fim não é só de Quaresma. É de todo brasileiro que ainda acredita.

Sobre o Autor

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) foi um escritor carioca, negro, neto de pessoas escravizadas. Trabalhou como funcionário público enquanto escrevia romances, contos e crônicas que dissecavam a sociedade brasileira com ironia e indignação.

Foi internado duas vezes em hospícios por alcoolismo — experiências que usou em sua literatura. Morreu aos 41 anos, pobre e sem o reconhecimento que merecia. Só décadas depois foi redescoberto como um dos grandes nomes da literatura brasileira.

Suas obras estão em domínio público e podem ser baixadas gratuitamente em dominiopublico.gov.br.

Citações em Destaque

É raro encontrar pessoas assim, mas as há e, quando se as encontra, mesmo tocadas de um grão de loucura, a gente sente mais simpatia pela nossa espécie.

— Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma

E desse modo ele ia levando a vida, metade na repartição, sem ser compreendido, a outra metade em casa, também sem ser compreendido.

— Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma

De todas as cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura.

— Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma

Terra não é nossa... Nós não tem ferramenta... isso é bom para italiano ou alemão, que governo dá tudo... Governo não gosta de nós...

— Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma

Desde os dezoito anos, que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar inutilidades... Restava disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma!

— Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma

Eu não vi homens de hoje; vi homens de Cro-Magnon, do Neanderthal armados com machados de sílex, sem piedade, sem amor, sem sonhos generosos, a matar, sempre a matar...

— Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma

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