Paulo Freire (1968)

Pedagogia do Oprimido — O livro mais citado e menos lido do Brasil

Paulo Freire foi preso por ensinar camponeses a ler. No exílio, escreveu o terceiro texto de ciências sociais mais citado do mundo. Quase ninguém que usa o nome dele leu o livro.

Por Felipe 10 min de leitura

O Livro

Existe um livro brasileiro que é o terceiro texto de ciências sociais mais citado em universidades no mundo inteiro, segundo levantamento do Google Scholar compilado pela London School of Economics. Traduzido para mais de 20 idiomas, presente em ementas de Harvard a Cambridge. Esse livro foi escrito à mão, em cadernos, por um pernambucano exilado no Chile que tinha sido preso pela ditadura militar por ensinar camponeses a ler.

O nome é Pedagogia do Oprimido. O autor é Paulo Freire. E a chance de que alguém que use o nome dele como bandeira política — pra atacar ou pra defender — tenha de fato lido o livro é estatisticamente desprezível.

Freire foi preso em 1964 — cerca de 70 dias no quartel, acusado de “subversivo e ignorante” — por ter alfabetizado 300 trabalhadores rurais em 40 horas de aula na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte — o episódio ficou conhecido como “As 40 Horas de Angicos”. O método: em vez de ensinar “Eva viu a uva”, usava palavras do cotidiano dos alunos — tijolo, enxada, salário, voto — e a partir delas abria discussões sobre a realidade em que viviam. As pessoas aprendiam a ler e, no processo, aprendiam a pensar sobre por que não sabiam ler. Isso aterrorizou os militares mais do que qualquer guerrilha.

No exílio, entre 1967 e 1968, escreveu o livro que mudaria a educação mundial. Não é um manual de “como dar aula” — é uma teoria sobre como a opressão funciona e como a educação pode ser a ferramenta que a desmonta.

10 Passagens de Impacto

1. O oprimido quer ser o opressor

“Os oprimidos, em vez de buscar a libertação, tendem a converter-se eles mesmos em opressores.”

A ideia mais incômoda do livro. Quando alguém cresce dentro de um sistema de opressão, o único modelo de “sucesso” que conhece é o do opressor. O empregado que maltrata o empregado novo. O pobre que ganha um pouquinho mais e cospe em quem ganha menos. O militante que reproduz dentro do movimento exatamente a hierarquia que diz combater.

Por que importa: Freire não está culpando o oprimido. Está dizendo que a opressão coloniza até o desejo de quem é oprimido. O primeiro passo da libertação é perceber essa formatação.

2. Ninguém liberta ninguém

“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.”

Duas negações simultâneas. Primeira: ninguém pode libertar outra pessoa de cima pra baixo — o intelectual que “vai salvar o povo” é paternalismo disfarçado de solidariedade. Segunda: ninguém se liberta sozinho, por meritocracia — o self-made man é um mito que serve à manutenção do sistema.

Por que importa: Essa frase destrói, ao mesmo tempo, o messianismo de esquerda e o individualismo de direita. A libertação é horizontal ou não é libertação. É coletiva ou é farsa.

3. A educação bancária

“Na visão ‘bancária’ da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber.”

Não existe educação neutra. Ou a escola ensina a pessoa a se encaixar no mundo como ele é — a obedecer, a aceitar, a não perguntar — ou ensina a questionar e imaginar como poderia ser. Freire chama o primeiro modelo de “educação bancária”: o professor deposita conteúdo na cabeça do aluno como quem deposita dinheiro numa conta.

Por que importa: É a escola que ensina a data da abolição, mas não pergunta por que a abolição precisou acontecer. É o treinamento corporativo que chama “capacitação” o ato de fazer você engolir o manual da empresa sem discussão. Freire deu nome a algo que todo mundo que passou por uma sala de aula sentiu na pele.

4. O medo da liberdade

“Os oprimidos, tendo internalizado a imagem do opressor, têm medo da liberdade.”

A liberdade cobra um preço. O empregado que questiona o patrão arrisca o emprego. O aluno que discorda arrisca a nota. Mas tem algo mais profundo: o oprimido carrega dentro de si a voz que diz “você não sabe nada”, “fique no seu lugar”. E confrontar essa voz exige enfrentar a própria identidade construída pela opressão.

Por que importa: Por que o pobre vota no candidato que vai cortar o programa social? Por que o trabalhador se identifica com o patrão? Freire não responde com “alienação”, que é uma palavra preguiçosa. Responde com algo mais sutil: medo de perder a única identidade que se conhece.

5. Os mitos que sustentam tudo

“É necessário que os opressores depositem mitos indispensáveis à preservação do status quo.”

E Freire lista: o mito de que todos são livres para trabalhar onde quiserem; o mito de que qualquer pessoa industriosa pode ser empreendedora — pior, o mito de que o vendedor ambulante é tão empreendedor quanto o dono de uma fábrica; o mito da igualdade de todos, quando a pergunta “você sabe com quem está falando?” ainda é corrente entre nós.

Por que importa: Freire escreveu isso em 1968. Mude a data. O mito do empreendedorismo como salvação individual. O mito do acesso igual à educação. Freire não previu o futuro — descreveu uma estrutura. Estruturas não mudam com o calendário.

6. A generosidade falsa

“Os opressores, falsamente generosos, têm necessidade da permanência da injustiça para que a sua generosidade continue tendo oportunidade de realizar-se.”

A caridade, quando vinda do opressor, não é bondade — é investimento. O rico que doa cestas básicas precisa que existam pessoas com fome. A empresa que patrocina bolsas precisa que a escola pública continue destruída. A generosidade verdadeira busca a eliminação da necessidade de generosidade.

Por que importa: Quando um bilionário doa 0,001% da fortuna e ganha manchete, isso é solidariedade ou publicidade? Freire diria que enquanto a estrutura que gera a necessidade da doação permanecer intacta, toda generosidade que não a questiona é falsa.

7. Ninguém educa ninguém

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”

Freire não está dizendo que professor é inútil. Está dizendo que o modelo “eu sei, você não sabe, fique quieto” não é educação — é domesticação. O professor sabe mais matemática. Mas o aluno sabe como é a vida no bairro dele, sabe como é chegar na escola com fome. Se o professor não aprende isso, não ensina nada que sirva.

Por que importa: “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.” Por isso o método começava com as palavras dos alunos. O pedreiro aprende com “tijolo”, não com “uva”.

8. A violência original

“Nunca na história a violência foi iniciada pelos oprimidos.”

A passagem que mais irrita. Mas Freire está deslocando a definição de violência. Violência não é só física. Violência é o salário que não paga o aluguel. Violência é a escola que não ensina. Violência é o “você sabe com quem está falando?”. Essas violências são anteriores e fundantes. Quando o oprimido reage, está reagindo a algo que já estava lá.

Por que importa: A classe dominante sempre define como violência o que os de baixo fazem — a pedra na vitrine, o bloqueio de estrada — e nunca o que ela própria faz — o despejo, o desmonte da saúde pública, a fila de quatro horas no SUS. Freire não resolve essa discussão. Mas muda os termos dela.

9. O diálogo exige amor

“Se eu não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo as pessoas, não me é possível o diálogo.”

Em qualquer outro autor, pareceria piegas. Num livro que cita Marx, Fanon e Che Guevara, soa subversivo. Freire coloca o amor como categoria política. Não amor romântico — compromisso com o outro. Freire era cristão e marxista, o que pra muita gente é contradição e pra ele era a coisa mais natural do mundo.

Por que importa: A esquerda tem uma relação difícil com afeto. O discurso dominante é de indignação. Mas indignação sem amor vira ressentimento, e ressentimento não transforma nada. A direita fala de “amor à pátria” — mas amor que exclui o diferente não é amor em nenhuma definição que Freire reconheceria.

10. Ser mais

“A desumanização, embora seja um fato concreto na história, não é, porém, destino dado, mas resultado de uma ordem injusta.”

O conceito central de Freire: humanos existem para “ser mais” — mais conscientes, mais livres, mais humanos. A opressão transforma pessoas em “ser menos”. Mas a desumanização não é natural. O que foi construído por humanos pode ser desconstruído por humanos.

Por que importa: Freire é acusado de utópico. E é. Mas define utopia como compromisso histórico: “Denunciar o que está errado. Anunciar o que pode ser. E agir no espaço entre os dois.” Isso não é ingenuidade. É o mínimo necessário para não desistir.

O que ninguém repete

A maior ironia é que Freire virou exatamente o que criticava: um conteúdo bancário. Uma citação no mural da escola. Um nome numa briga política em que nenhum dos dois lados leu o livro.

Porque o que ele propôs é difícil. Não é “respeitar o aluno” — é reconhecer que o aluno sabe coisas que você não sabe. Não é “dar voz ao oprimido” — é entender que o oprimido já tem voz e o problema é que você não está ouvindo. Não é “conscientizar o povo” — é abandonar a arrogância de achar que você é o consciente e o povo é o inconsciente.

A pergunta permanece: educação pra quê? Pra decorar fórmula e passar na prova? Pra treinar mão de obra? Ou pra formar gente que se recusa a aceitar que “é assim mesmo”?

Sobre o Autor

Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) nasceu em Recife, Pernambuco. Conheceu a fome na infância quando a família empobreceu na crise de 1929. Formou-se em Direito, nunca exerceu. Nos anos 1960, desenvolveu seu método de alfabetização no Nordeste — o episódio de Angicos, com 300 trabalhadores rurais alfabetizados em 40 horas de aula, chamou a atenção do governo João Goulart, que planejava aplicá-lo em escala nacional. Chamou também a atenção dos militares.

No exílio (1964-1980), passou por Chile, EUA, Suíça e mais de 30 países, assessorando programas de educação em países africanos recém-independentes. De volta ao Brasil, foi Secretário de Educação de São Paulo. Publicou mais de 20 livros, recebeu pelo menos 41 títulos de Doutor Honoris Causa e foi declarado Patrono da Educação Brasileira.

Morreu em 1997, aos 75 anos. A Pedagogia do Oprimido é o único livro brasileiro na lista dos 100 textos mais presentes em ementas de universidades de língua inglesa, segundo o Open Syllabus Project. E continua sendo, possivelmente, o livro mais citado e menos lido do país que o produziu.

Citações em Destaque

Os oprimidos, em vez de buscar a libertação, tendem a converter-se eles mesmos em opressores.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Os oprimidos, tendo internalizado a imagem do opressor, têm medo da liberdade.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Os opressores, falsamente generosos, têm necessidade da permanência da injustiça para que a sua generosidade continue tendo oportunidade de realizar-se.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Nunca na história a violência foi iniciada pelos oprimidos.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Se eu não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo as pessoas, não me é possível o diálogo.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

A desumanização não é destino dado, mas resultado de uma ordem injusta.

— Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

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